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domingo, 2 de junho de 2013

TERMÔMETRO ECONÔMICO - Abril e Maio de 2013

O governo, enfim, se rendeu ao óbvio, e aumentou a taxa SELIC para 8,0%, em defesa da estabilidade econômica e combate à inflação. Por outro lado, os dados do 1º trimestre do PIB brasileiro ficaram abaixo da expectativa, o que ajuda a construir um cenário macroeconômico de pressão inflacionária, taxas de juros em alta, e baixo crescimento, tudo o que o governo não queria, mas que poderia ter evitado há mais tempo. O Dólar, que vinha se mantendo no patamar de R$ 2,00 há vários meses, fechou o maio em R$ 2,1430, principalmente devido às boas notícias vindas do mercado americano.
  • PIB cresce 0,6% no 1º tri de 2013, menos do que o esperado pelo mercado e pelo governo: Os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que o PIB cresceu 0,6% no 1º trimestre em relação aos últimos três meses de 2012, chegando ao valor de R$ 1,11 trilhão. Os economistas esperavam um número maior, perto de 1%, mas acabou ficando no piso das projeções, que estavam entre 0,6% e 1,1%. Isso significa que a economia manteve exatamente o mesmo ritmo de crescimento registrado no último trimestre do ano passado (0,6%). Como um todo o PIB melhorou, mas foi puxado, principalmente, pela Agropecuária e pelos Investimentos, que cresceram 9,7% 4,6%, respectivamente. A Indústria teve queda de 0,3%, e os Serviços, que têm maior peso, avançaram ‘apenas’ 0,5%. Segundo o IBGE, o consumo das famílias cresceu só 0,1%, enquanto o do governo ficou estável. Segundo o IBGE, o PIB acumula crescimento de 1,2% em 12 meses em relação aos quatro trimestres anteriores. Em relação ao 1º trimestre de 2012, o crescimento é de 1,9%.
  • Boletim Focus reduz novamente estimativa do PIB em 2013 para 2,77%: De acordo com o último Boletim Focus de maio, o Banco Central reduziu mais uma vez a previsão do PIB para 2013, de 3,00% no início do mês, para 2,77% no final do mês. Para 2014, a projeção também caiu, de 3,50% para 3,40%. O governo, que em março acreditava em crescimento de 4%, já admite baixo desempenho para este ano, e com a decisão (pelo menos aparente) de priorizar o combate da inflação, a tendência é que a economia tenha que ser trabalhada não sob o viés do crescimento via consumo, mas com investimento produtivo e ampliação da oferta.
  • Banco Mundial prevê que Brasil crescerá menos que a América Latina em 2013: A região da América Latina e do Caribe deverá crescer 3,5% neste ano, ante alta de 3% no ano passado, mas ainda ficará abaixo da média de 5% observada antes da crise de 2008 e 2009 ou de 6% em 2010, prevê o Banco Mundial, em seu relatório semestral. O banco projeta que o Brasil e a Argentina deverão ter crescimento abaixo da média regional em 2013, em torno de 3%, superando, porém, a taxa de crescimento de 2%, em 2012. Segundo o relatório, estão diminuindo os ventos globais favoráveis que facilitaram o crescimento econômico robusto e a inclusão social na América Latina e Caribe na última década. O banco destaca ainda que o novo contexto global — de excesso de liquidez, crescimento mais lento na China, atividade econômica fraca e dívida pública elevada no mundo desenvolvido— aponta para a necessidade de a América Latina fazer mais por conta própria, a fim de voltar às taxas de crescimento semelhantes às taxas registradas na última década. Ele afirmou que a ênfase política está mudando dos motores externos para motores de crescimento interno, e das preocupações com a estabilidade macroeconômica e financeira para reformas de estímulo à produtividade. "À medida que os ventos globais favoráveis diminuem, a capacidade dos países da América Latina para crescer acima de 3,5% depende essencialmente deles mesmos”. O relatório observa que as conquistas da América Latina e Caribe na década de 2000 foram significativas, incluindo a estabilidade macroeconômica, crescimento sólido, redução da pobreza e uma distribuição de renda mais justa. De acordo com o Banco Mundial, o desafio para a política econômica daqui para frente é "preservar e trabalhar sobre os ganhos passados, consolidando os dividendos de um crescimento com inclusão social, e fazer isso sem a ajuda de ventos favoráveis globais".
  • COPOM aumenta, pela 2ª vez consecutiva, a taxa de juros SELIC para 8% ao ano: O Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central decidiu aumentar a taxa básica de juros – a SELIC – de 7,5% para 8,0% ao ano, na última reunião realizada em 28 e 29 de maio. O motivo, segundo nota, foi a inflação, que tem sido motivo de preocupação da equipe econômica nos últimos meses. "O Comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano", disse a nota. Tal decisão veio confirmar as análises deste boletim, iniciadas há quase um ano atrás, de que a autoridade monetária teria que aumentar, em algum momento, a taxa de juros básica da economia para segurar a inflação. A decisão foi tomada por unanimidade entre os membros do COPOM. Na reunião anterior, em 17 de abril, dois dos oito integrantes do Comitê votaram pela manutenção da taxa em 7,25% ao ano. Esta última alta, a 2ª consecutiva, ocorre no mesmo dia em que foi divulgado que economia brasileira cresceu abaixo do esperado no 1º trimestre de 2013. Na reunião de abril, o Comitê já havia indicado que a inflação preocupava não só pelo índice como pela dispersão – ou seja, pela quantidade de itens que registravam alta. Ainda assim, havia uma aposta de que "incertezas" na economia do Brasil, e principalmente, no cenário externo, reduziria a pressão sobre os preços, o que acabou não se confirmando como esperado. Em nota, a Força Sindical avaliou que a decisão do COPOM "acende o sinal de alerta para os trabalhadores porque, embora os índices mostrem bom nível de emprego, elevar a taxa SELIC contribuirá para a redução de investimentos no setor produtivo, obrigando o governo a pagar mais juros para investidores”. Ao contrário da Força Sindical, a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FECOMERCIO-SP) apoiou a decisão do COPOM. "O BC acertou duplamente ao elevar a SELIC em 0,5 ponto percentual: indicou atenção ao patamar atual e à trajetória da inflação e cautela em promover um ajuste gradual da taxa", afirmou, em nota. A próxima reunião do COPOM está marcada para 9 e 10 de julho. Segundo as projeções do Banco Central, em seu último Boletim Focus de maio, a taxa SELIC deve ficar em 8,50% em 2013 (0,25 ponto percentual acima da projeção feita no início do mês). Para 2014, a projeção também está em 8,50% (no início do mês era de 8,25%). Ou seja, a expectativa é de que haja, pelo menos, mais um aumento da SELIC ainda em 2013. Outro fato importante foi a mostra do Presidente do Banco Central de que o foco de entidade deve ser, prioritariamente, o controle da inflação e da moeda, e não um instrumento de política do governo, como estava acontecendo até então.
  • IPCA-15 de maio fica em 0,46% e acumula 3,06% em 2013: O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), que mede a prévia da inflação oficial brasileira, apresentou variação de 0,46% em maio e ficou abaixo da taxa de 0,51% registrada em abril. Em 2013, o IPCA-15 apresenta valor acumulado de 3,06%, bem acima da taxa de 2,39% relativa a igual período de 2012, o que justifica a preocupação do mercado e do próprio governo com a persistência da inflação neste ano. Considerando os últimos 12 meses, o IPCA-15 situou-se em 6,46%, descendo dos 6,51% presentes nos 12 meses imediatamente anteriores. Os grupos ‘Saúde e Cuidados Pessoais’, ‘Vestuário’ e ‘Habitação’ tiveram os maiores impactos no IPCA-15 (1,30, 0,76 e 0,72 ponto percentual, respectivamente). Os remédios, em especial, com 0,10 ponto percentual, lideraram os principais impactos do mês. Já o grupo ‘Alimentos e Bebidas’ (que tem sido o grande vilão da inflação nos últimos meses), embora tenham aumentado 0,47%, mostraram forte recuo em relação a abril, quando a alta havia sido de 1,00%, e contribuíram fortemente para a queda do índice em maio.
  • Inflação medida pelo IGP-M ficou estável em maio, em 0,00%: O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), a chamada ‘inflação do aluguel’, fechou o 5º mês de 2013 em 0,00%, informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV). Com isso, o acumulado em 2013 está em 0,9936%, e nos últimos 12 meses, o índice está em 6,2160%. Segundo as projeções do Banco Central, em seu último Boletim Focus de maio, o IGP-M deve ficar em 4,27% em 2013 (a projeção feita no início do mês era de 4,75%). Para 2014, a projeção está em 5,30% (no início do mês era de 5,28%).
  • Dólar fechou maio em R$ 2,1430: O Dólar encerrou o 5º mês do ano acima de R$ 2,00. A cotação de 31 de maio foi de R$ 2,1430, ante R$ 2,0100 verificada no início do mês. O Euro fechou maio a R$ 2,7676, ante R$ 2,6258 verificado no início do mês. Especificamente com relação ao Dólar, apresentou em maio ganho de +6,61%, e no ano, até agora, acumula ganho de +4,74%. A previsão para a taxa de câmbio, feita pelo Banco Central para 2013, conforme o último Boletim Focus de maio, é de R$ 2,05. Para 2014, a taxa de câmbio está estimada em R$ 2,10. O Banco Central (BC) manteve-se longe dos negócios. Profissionais do mercado citaram que, aparentemente, a autoridade monetária está disposta a permitir um Dólar em patamares mais altos. O movimento de alta no Brasil acompanha o avanço da moeda americana no exterior, onde o Dólar sobe ante boa parte das divisas com elevada correlação com commodities e em relação ao Euro. Os dados positivos divulgados nos Estados Unidos – aumento do índice de confiança do consumidor americano - têm motivado a busca pelo Dólar, em meio à percepção de que, com a economia americana se recuperando, aumentam as chances de que o Federal Reserve (FDE, o banco central do país) reduza o programa de compra de bônus. Com as boas notícias, os principais índices de ações em Nova York e na Europa subiram, enquanto o Dólar se fortaleceu com a perspectiva de que, numa economia em recuperação, os estímulos do FED podem ser retirados no futuro próximo. Isso, nas últimas semanas, tem fortalecido a moeda americana. No Brasil, mesmo com o Dólar acima de R$ 2,07, o BC não entrou no mercado — o que poderia ocorrer, conforme alguns analistas, por meio de leilão de swap cambial tradicional (equivalente à venda de dólares no mercado futuro). A decisão do Comitê de Política Monetária (COPOM) sobre a SELIC traz um ingrediente adicional para os negócios. Apesar de o BC, na visão de alguns profissionais, estar confortável com um Dólar mais alto, já que o controle preferencial da inflação será feito via SELIC, ainda há certa preocupação com a alta da moeda americana.
  • Brasileiros têm endividamento recorde no 1º trimestre: O endividamento dos brasileiros com o sistema financeiro nacional bateu novo recorde ao final do 1º trimestre de 2013. Segundo o Banco Central, as dívidas das famílias correspondiam, em março, a 43,99% da renda anual. Em fevereiro, recorde anterior, o índice estava em 43,79%. No fim do 1º trimestre de 2012, era de 42,37%. Segundo o BC, parte do aumento do endividamento nos últimos anos está ligada ao crédito habitacional. Se forem excluídas as dívidas com a compra de imóveis, o endividamento fica em 30,48% da renda em março, ante 30,54% em fevereiro. Em março do ano passado, estava em 31,17%. Ao divulgar os dados sobre o crédito em abril, o chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, disse que muitas famílias estão substituindo o pagamento do aluguel (que não entra na estatística da instituição sobre dívidas) pelo financiamento habitacional, um endividamento de longo prazo, com juros mais baixos e que significa aumento de patrimônio. O BC também divulgou números sobre o comprometimento de renda dos brasileiros, que considera dados mensais de renda e prestações pagas aos bancos. As prestações correspondiam, no 3º mês do ano, a 21,66% da renda mensal dos trabalhadores, ante 21,84% em fevereiro (dado revisado). Também houve queda em relação a março de 2012, quando o comprometimento estava em 22,91% da renda. Se forem retirados da conta os financiamentos habitacionais, o comprometimento da renda mensal fica em 20,06% em março de 2013, ante 20,24% em fevereiro.
  • Brasil criou 196.913 vagas de trabalho em abril: Segundo os últimos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), referentes a abril de 2013, foram criados no Brasil, 196.913 novas vagas de emprego com carteira assinada, expansão de 0,49% na comparação com março, mantendo a trajetória de expansão, e constituindo-se no maior saldo do emprego desde maio de 2012. Nos últimos 12 meses, o índice registrou a criação de 1.087.410 postos de trabalho, correspondendo à elevação de 2,79% no contingente de empregados celetistas do país. No acumulado do ano, o mercado teve um acréscimo de 549.064 novas vagas. Na análise mensal, houve elevação em todos os oito setores de atividade econômica analisados. Em números absolutos, o destaque ficou com Serviços, com 75.220 novas vagas de trabalho, seguido da Indústria de Transformação (+40.603 novos postos), da Construção Civil (+32.921 novos postos) e da Agricultura (+24.807 novas vagas).
  • Taxa de desemprego atinge 5,8% em abril, segundo o IBGE: A taxa de desemprego apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nas seis principais regiões metropolitanas do País, ficou em 5,8% em abril, ante 5,7% em março. O resultado veio no teto do intervalo das estimativas colhidas pelo AE Projeções, que iam de 5,5% a 5,8%, com mediana de 5,6%. A taxa é a menor para um mês de abril desde o início da série histórica, em março de 2002. Em relação a março deste ano, a população ocupada caiu 0,1% e, ante abril de 2012, avançou 0,9%.
  • “Economia dos EUA nunca mais será a mesma”: A época de ouro vivida pelos Estados Unidos antes do início da crise econômica em 2008, não deverá mais voltar, de acordo com Tharcisio Souza Santos, diretor do MBA executivo da FAAP, especialista em economia internacional. A afirmação do diretor é pautada pela comparação com a economia britânica nos anos 20, após o Tratado de Versalhes, acordo de paz na Europa, que colocou fim oficialmente à primeira Guerra Mundial. "O ano de 2008 nos Estados Unidos é o 1919 dos ingleses. Devagar, depois do tratado, o império financeiro do mundo, em Londres, foi passando para Nova York. O mesmo irá acontecer com os Estados Unidos, que deixará de ser a potência econômica para a China e nunca mais voltarão a ser como antes", explica o professor. No entanto, ele destaca que os americanos continuarão a ser poderosos em pesquisa, organização e armamento, mas "a economia da China irá ultrapassá-los na metade da próxima década", pontua. A declaração veio após uma análise sobre o desempenho da economia dos Estados Unidos no 1º trimestre. A primeira estimativa do Produto Interno Bruto da maior economia do mundo teve expansão de 2,5%, contra crescimento de 0,4% no 4º trimestre de 2012, impulsionada pelo aumento de 3,2% no consumo das famílias (contra 1,8% no trimestre anterior), pela alta de 2,9% nas exportações (ante -2,8% no último trimestre de 2012) e pelo expressivo crescimento dos investimentos do setor privado (12,3%, contra 1,3% no trimestre imediatamente anterior). No entanto, o valor ainda ficou abaixo das expectativas, que previam crescimento de 3,2%. A melhora foi limitada por causa dos gastos do governo com consumo e investimento, que caíram 4,1% (vindo de uma queda de 7% no 4º trimestre de 2012) por conta da forte contração dos gastos com a defesa, cuja queda foi de 11,5%. "Esse resultado reflete o ajuste fiscal iniciado pelo governo norte-americano no ano fiscal de 2013, que prevê um corte de US$ 85 bilhões no orçamento, sendo metade desse total deduzido exatamente do orçamento destinado ao Departamento de Defesa", aponta o analista da Concórdia, Flávio Combat, em relatório. Na opinião do professor, a presença militar americana nos outros países será cada vez menor, por conta da redução dos investimentos e também porque "o americano já está cansado deste cenário". Desta maneira, os gastos do governo já não serão mais uma das molas propulsoras do crescimento do país, mas sim os investimentos do setor privado. "Os americanos continuarão liderando as pesquisas de inovações, educação e saúde, mas manterão seu ritmo de crescimento entre 2,5% e 3%", diz Santos, que projeta expansão para este ano entre 1,5% e 2%. No que se refere à questão fiscal, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, apresentou ao Congresso um plano de gastos de US$ 3,8 trilhões para o próximo ano, que já contempla uma série de medidas para conter o aumento de gastos com saúde e seguridade social. No entanto, para conseguir esses cortes, a Casa Branca prevê aumento da tributação sobre as famílias mais ricas e sobre as empresas, propostas incisivamente combatidas pelos republicanos. "O aumento de impostos sobre os mais ricos e empresas é parte fundamental do ajuste fiscal planejado pelos democratas, que enxergam as iniquidades tributárias entre as classes mais ricas e as mais pobres como um dos principais problemas a serem enfrentados durante a reforma fiscal", completa Flávio Combat. Segundo estimativas da Casa Branca, a elevação dos impostos permitiria o aumento da arrecadação em US$ 1 trilhão na próxima década. Os republicanos insistem na manutenção dos benefícios fiscais e enfatizam a necessidade de cortes de até US$ 4,6 trilhões para os próximos dez anos, com severos ajustes nos programas sociais financiados pelo Estado. O resultado mais imediato desse embate é o travamento da pauta de projetos que tramitam no Congresso, dificultando a aprovação de novos estímulos para sustentar a atividade nos Estados Unidos. "Essa questão é totalmente política, o que é super normal, mas no fim os republicanos sabem que os democratas são mais fortes, uma vez que têm apoio da população", enfatiza o diretor da FAAP.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TERMÔMETRO ECONÔMICO - Novembro de 2011

Publicado por Frederico Mafra
Consultor Sênior da GLOBAL ON Consultores Associados e professor do IBMEC e FEAD

O mês de novembro destaca os resultados do PIB brasileiro do 3º trimestre de 2011, que apresentou variação nula, confirmando as expectativas do mercado de que os efeitos da crise mundial, de fato, chegaram ao país. O governo, em contrapartida, anunciou medidas para estimular o consumo interno e os investimentos, via subsídios fiscais. O Real voltou a se desvalorizar frente ao Dólar, e o COPOM reforçou a estratégia de redução gradual da taxa SELIC, cortando em 0,5 ponto percentual os juros básicos da economia. Outros indicadores de novembro: inflação (voltando a se acelerar), inadimplência (com índices maiores que 2010) e mercado de trabalho (com saldo positivo no mês, mas 38,4% abaixo do desempenho obtido em 2010).
  • PIB Brasil do 3º trimestre tem variação nula: O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil apresentou variação nula (0,0%) no 3º trimestre de 2011, em relação ao 2º. O destaque positivo foi o setor da Agropecuária, que cresceu 3,2% no período. Indústria e Serviços, em contrapartida, apresentaram variação negativa de -0,9% e -0,3%, respectivamente. Na comparação com o 3º trimestre de 2010, o PIB cresceu 2,1%. No acumulado de 2011 (janeiro até setembro), o PIB brasileiro apresenta expansão de 3,2% em relação a 2010, alcançando R$1,05 trilhão em valores correntes.
  • Banco Central reduz estimativa para o PIB em 2011: De acordo com o último Boletim Focus de novembro, o Banco Central reduziu mais uma vez a previsão do PIB para 2011, de 3,29%, verificada no início do mês, para 3,09% no final deste mês. Para 2012, a projeção também é de queda, de 3,50%, feita no início do mês, para 3,48% neste último Boletim Focus. Segundo vários economistas do mercado, as projeções estão convergindo para um PIB em torno de 3% até o final de 2011. Para tanto, a economia teria crescer mais do que 0,8% no 4º trimestre, e há um entendimento do mercado que a economia brasileira apresentará uma modesta recuperação neste final de ano, superando a estagnação verificada no 3º trimestre. O Ministério da Fazenda trabalhava com uma previsão de crescimento em torno de 3,8% para 2011, considerada muito otimista pelo mercado. Mas o próprio Ministro Guido Mantega já admitiu que o PIB não chegará a este índice, por conta não só do desempenho nulo do 3º trimestre, mas também pela revisão dos valores feita pelo IBGE para os dois primeiros trimestre do ano. Para 2012, o governo trabalha com previsão de, no mínimo, crescimento do PIB de 4%, podendo chegar a 5% dependendo de algumas novas ações governamentais, como uma expansão do investimento público, e de outras já confirmadas, como o aumento previsto para o salário mínimo em janeiro, as desonerações do SIMPLES e do Plano Brasil Maior, o impacto defasado das reduções na taxa SELIC ocorridas no 2º semestre deste ano, e a perspectiva de crescimento do crédito livre em 2012.
  • Governo anuncia medidas para estimular consumo interno e investimentos: O Ministério da Fazenda anunciou um pacote de medidas de estimulo à economia, voltadas ao consumo doméstico e aos investimentos, que envolve desonerações fiscais para o setor produtivo e para o mercado financeiro. No caso da Indústria, foi reduzido o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a linha branca (que inclui geladeiras, fogões e máquinas de lavar). Para se ter uma idéia, o IPI cairá de 4% para 0% no caso dos fogões, de 15% para 5% nas geladeiras e congeladores, de 20% para 10% nas lavadoras automáticas, e de 10% para 0% nos tanquinhos. Com relação aos investimentos, o governo anunciou a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no crédito ao consumidor, de 3% para 2,5%, além de eliminar o IOF de 2% que incide sobre a aplicação de investidores estrangeiros em ações na BOVESPA. O setor de alimentos também foi beneficiado, com a redução do PIS/COFINS para as massas, de 9,25% para 0%. Em termos de renúncia fiscal, as medidas adotadas pelo governo irão representar, pelo menos, R$ 1 bilhão em 2012. As principais redes varejistas já anunciaram que irão repassar a redução do IPI para os consumidores. Pelos cálculos da FECOMERCIO-SP (Federação do Comércio de São Paulo), os descontos seriam de 3% a 5% nos preços finais dos produtos. Para completar, a Caixa Econômica Federal anunciou, depois das medidas do governo, que irá liberar R$ 5 bilhões de crédito para aquisição de eletrodomésticos, móveis, eletroeletrônicos e outros bens de consumo.
  • Real fecha novembro em R$ 1,8109: O câmbio vem se mostrando muito volátil nos últimos meses. Depois de ter apresentado alta desvalorização perante o Dólar no mês de setembro (fechando o mês em R$1,8800), o Real voltou a se valorizar fortemente em outubro (quando fechou cotado a R$1,704). Em novembro, porém, voltou a se desvalorizar também fortemente, fechando o mês em R$1,8109 (conforme dados do Banco Central). Com isso, o Dólar encerrou novembro com alta de 4,73% em relação a outubro, e valorização em 2011 de 9,81%. O Real também se desvalorizou perante o Euro, fechando o mês de novembro em R$ 2,4416, ante R$2,3610 verificado em outubro. Especificamente com relação ao Dólar, a previsão para a taxa de câmbio, feita pelo Banco Central para 2011, está em R$ 1,79, conforme o último Boletim Focus de novembro. Para 2012, a taxa de câmbio está estimada em R$ 1,75.
  • COPOM reduz mais uma vez a taxa SELIC para 11,00% ao ano: Na última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), realizada em 29 e 30 de novembro, a taxa SELIC foi reduzida mais uma vez em 0,50 ponto percentual, chegando a 11,00% ao ano, reforçando a estratégia do Banco Central em reduzir os juros para estimular o crescimento econômico e mitigar os efeitos da crise econômica mundial no Brasil. Mesmo com a redução da SELIC, o país segue liderando o ranking mundial de juros reais, com uma taxa de 5,1% (descontada da taxa de 11% a inflação dos últimos 12 meses). Somente um corte de 3,5 pontos percentuais retiraria do Brasil da 1ª posição entre os maiores pagadores de juros do mundo (ranking que envolve 40 países). A próxima reunião do COPOM acontecerá nos dias 17 e 18 de janeiro de 2012, e uma continuidade na redução da taxa de juros ajudaria o governo a economizar com o custo da dívida pública federal (remunerada pela SELIC) e no comportamento do mercado de câmbio, contribuindo para moderar um avanço na valorização do Real frente ao Dólar. O Boletim Focus, do Banco Central, projeta para o final de 2012 a taxa SELIC em 9,75%.
  • IPCA de novembro fica em 0,52%: Índice que mede a inflação oficial brasileira voltou a se acelerar em novembro, passando de 0,43% em outubro para 0,52% neste último mês. Com isso, o resultado em 2011 aponta uma inflação acumulada de 5,97%, acima da taxa de 5,25% verificada no mesmo período do ano passado, praticamente 1,5% acima do centro da meta estipulada pelo governo para o ano, que era de 4,5%. Considerando os últimos 12 meses, o IPCA situa-se em 6,64%. A expectativa do Banco Central é de que o IPCA encerre 2011 em até 6,5%, no topo da meta de inflação estipulada pelo próprio governo. O avanço do IPCA em novembro não condiz com o discurso do Banco Central de que a inflação está sob controle e em desaceleração por causa da crise econômica mundial e o baixo crescimento econômico brasileiro. A inflação parece estar ancorada no crédito interno, estimulado pelo próprio governo para aquecer a economia. Como o Banco Central deve manter a estratégia de continuar reduzindo a taxa SELIC em 2012, a solução poderia ser, justamente, segurar um pouco mais o crédito. Trata-se de uma decisão difícil e controversa, mas a prioridade deveria ser controlar a inflação ou fomentar o crescimento econômico? Para refletir...
  • Grupos ‘Alimentação e Bebidas’ e ‘Despesas Pessoais’ foram os vilões da inflação em novembro: Os preços dos ‘Alimentos e Bebidas’ (de 0,56% em outubro para 1,08% em novembro) causaram impacto de 0,25 ponto percentual no IPCA, com destaque para as carnes. Nas ‘Despesas Pessoais’ (de 0,22% em outubro para 0,88 em novembro), os destaques foram serviços de manicure, cabeleireiro e costureira.
  • Banco Central mantém previsão de inflação para 2011 em 6,50%: Através de seu último Boletim Focus de novembro, o Banco Central manteve a projeção para a inflação brasileira em 2011 (com base no IPCA), de 6,50%, feita no início do mês. Para 2012, a projeção é de 5,49% (queda de 0,10 ponto percentual em relação à previsão do início do mês, que era de 5,59% para o próximo ano).
  • IGP-M desacelera pouco em novembro: O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), a chamada “inflação do aluguel”, desacelerou pouco em novembro, atingindo 0,50% no mês, frente 0,53% verificado em outubro. A taxa ficou dentro das estimativas dos analistas do mercado. No ano, o IGP-M acumula alta de 5,22%, e de 5,95% nos últimos 12 meses. A projeção do Banco Central, em seu último boletim Focus de novembro, aponta o IGP-M encerrando 2011 em 5,75%, 0,03 ponto percentual abaixo da previsão feita no final de outubro (5,78%). Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em novembro houve desaceleração do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), de 0,68% para 0,52%, mas aceleração nos outros dois índices que compõem o IGP-M – alta de 0,43% no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), ante 0,26% verificado em outubro, e alta de 0,50% no Índice Nacional de Custo da Construção Civil (INCC), frente a 0,20% verificado no mês passado.
  • Inadimplência aumenta 5,9% em outubro: Conforme apontou o indicador da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, o número de consumidores inadimplentes incluídos no Serviço de Proteção ao Crédito registrou aumento de 5,9% em outubro frente a setembro deste ano. Em comparação a outubro do ano passado, a alta foi de 4,78%. No acumulado do ano, a alta é de 5,21%, sendo tal resultado reflexo do ciclo de aperto monetário empreendido pelo Banco Central até julho, e a conseqüente aplicação contínua dessa medida no custo médio do crédito praticado pelo mercado.
  • País gerou 126.143 novas vagas de emprego em outubro: Segundo os últimos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), foram criados no Brasil, em outubro, 126.143 novas vagas de emprego com carteira assinada. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, a geração de empregos no Brasil recuou 38,4%, sendo este o pior resultado para outubro desde 2008. No acumulado do ano até outubro, foram criadas 2.241.574 novas vagas, sendo este montante também abaixo do resultado registrado em igual período de 2008, quando foram criados 2.337.161 de empregos com carteira assinada. Como projetado por este boletim desde julho, a meta deste ano ficará abaixo dos 2,5 milhões de novos empregos gerados. O próprio governo, que inicialmente projetava 3 milhões de novos empregos formais no Brasil em 2011, reduziu sua meta para 2,7 milhões, e agora já admite um saldo em torno de 2,4 milhões. Especificamente com relação aos dados do mês de outubro, os principais setores responsáveis pela expansão do emprego no Brasil foram os Serviços (+77.201 novos postos), o Comércio (+60.878 novos postos), a Construção Civil (+10.298 novos postos) e a Indústria da Transformação (+5.206 novos postos). O que se observa, de fato, é que a crise internacional e a perspectiva de baixo crescimento da economia brasileira para os próximos meses já está afetando o mercado de geração de empregos no país.
  • Economia mundial está à beira de uma nova e profunda recessão do emprego: Esta é a conclusão do “Relatório sobre o Trabalho no Mundo 2011: os mercados a serviço do emprego”, divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo o estudo, o mercado de trabalho no mundo se encontra no limite de seis meses que leva para uma desaceleração econômica impactar o emprego. Ainda conforme o relatório, 2/3 das economias avançadas e metade das economias emergentes e em desenvolvimento já atravessam um movimento de desaceleração do emprego (como já podemos observar no Brasil). A OIT calcula que nos próximos dois anos a economia mundial teria de criar 80 milhões de postos de trabalho para que o cenário retomasse os índices verificados antes da crise financeira internacional de 2008. Destas vagas, 27 milhões teriam que ser criadas nos países desenvolvidos, fato que se mostra cada vez mais difícil de acontecer. Segundo a entidade, se foram mantidas as tendências atuais, seriam necessários pelo menos cinco anos para que o emprego voltasse aos níveis anteriores à crise nas economias avançadas, um ano depois do previsto pela própria OIT no relatório do ano passado. Uma das conseqüências do aumento do desemprego é o correspondente aumento da tensão social em todo o mundo. Alguns dados corroboram esta perspectiva: em mais de 45 dos 118 países industrializados a tensão social vem aumentando, e 69 países registraram aumento no percentual de cidadãos que perceberam uma piora no seu nível de vida em 2010 comparado com 2006. Como soluções, a OIT defende o fortalecimento de programas em favor do emprego e investimento na economia real, além de aumentos nos salários do trabalhador.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

TERMÔMETRO ECONÔMICO - Outubro de 2011

O mês de outubro destaca a volta da valorização do Real frente ao Dólar, face às notícias positivas quanto aos efeitos da crise econômica na Europa. O COPOM mantém sua estratégia de redução gradual da taxa SELIC para o final do ano, e os principais indicadores de inflação no país apresentam sinais de desaceleração. Outros indicadores de outubro: PIB (novas estimativas de redução para 2011 e 2012, confirmando a tendência de desaceleração da economia brasileira), inadimplência (reduzindo-se pela 1ª vez após 6 altas consecutivas) e mercado de trabalho (com saldo positivo no mês, mas bem abaixo do desempenho obtido em 2010).
  • Real volta a se valorizar fortemente em relação ao Dólar em outubro: Depois de ter apresentado alta desvalorização perante o Dólar no mês de setembro, o Real voltou a se valorizar fortemente em outubro. No final de setembro valia R$ 1,8800, mas fechou outubro cotado a R$ 1,704. Com isso, o Dólar encerra o mês com queda acumulada de 9,93%, e valorização em 2011 de apenas 3,21% (chegou a ser de mais de 14% no mês passado). O Real também se valorizou perante o Euro, fechando o mês de outubro em R$2,3610, ante R$2,4938 verificado em setembro. Especificamente com relação ao Dólar, a previsão para a taxa de câmbio, feita pelo Banco Central para 2011, está em R$ 1,75, conforme o último Boletim Focus de outubro, mas a previsão do mercado é que volte a cair para algo em torno de R$ 1,70. Para 2012, a nova taxa de câmbio passou de R$ 1,70 (início de outubro) para R$ 1,75 (final de outubro). De acordo com analistas de mercado, o acordo entre os líderes europeus para combater a crise da dívida na região trouxe de volta a tranqüilidade aos mercados, amenizando temores quando a um contágio da crise pela Europa e seus efeitos sobre a economia global, favorecendo o retorno dos investimentos a países com fundamentos sólidos e elevados rendimentos, como o Brasil. Além disso, os agentes econômicos tendem a olhar com mais atenção a taxa básica de juros da economia brasileira, que mesmo em processo de queda, ainda é uma das maiores (e mais atrativas) do mundo. Apesar dos investidores acreditarem em, pelo menos, mais duas quedas de 0,5 ponto percentual até o início de 2012, a SELIC remunera os títulos públicos, atraindo mais investidores estrangeiros, e dessa forma, mais dólares para o país, fortalecendo a valorização do Real (ou a desvalorização da moeda americana frente ao Real).
  • COPOM reduz mais uma vez a taxa SELIC para 11,50% ao ano: Na última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), realizada em 18 e 19 de outubro, a taxa SELIC foi reduzida mais uma vez em 0,50 ponto percentual, chegando a 11,50% ao ano, e dando seqüência à estratégia do Banco Central de reduzir os juros para estimular o crescimento econômico e mitigar os efeitos da crise econômica mundial no país. Tal redução já era esperada pelo mercado. O governo e o próprio Banco Central continuam defendendo a tese de que se desenha um cenário de convergência da inflação brasileira para a meta em 2012, algo ainda controverso entre os economistas e especialistas do mercado. O que de fato se observa é que o Banco Central sinaliza, infelizmente, uma maior tolerância com a inflação, acreditando que os principais indicadores que medem a variação dos preços no país devem começar a cair neste último trimestre. E os analistas do mercado ainda acreditam que esse movimento de redução da SELIC pode ser seguido por novas quedas, caso a perspectiva sobre o PIB continue apresentando desaceleração econômica. Mesmo com a decisão de se reduzir mais uma vez a taxa SELIC, o Brasil mantém a 2ª posição no ranking mundial dos maiores juros nominais, envolvendo 40 países. O país só perde para a Venezuela, com taxa de 17,37% ao ano. Mas com relação aos juros reais, o Brasil se mantém no topo da lista, com taxa de 5,5% ao ano. O boletim Focus, do Banco Central, projeta para o final de 2011 a taxa SELIC em 11,00%. A próxima reunião do COPOM, a última de 2011, acontecerá nos dias 29 e 30 de novembro.
  • O que há de positivo e negativo na decisão de se reduzir a taxa de juros: Com relação à estratégia do Banco Central em reduzir gradativamente a taxa de juros no país, alguns analistas destacam pontos positivos, como uma maior economia, por parte do governo, com o custo da dívida pública federal (remunerada pela SELIC), e o comportamento do mercado de câmbio, que tende a ser mais moderado frente ao avanço da valorização do Real perante o Dólar. Por outro lado, entretanto, há alguns pontos negativos, como já destacados em várias edições deste boletim. O principal refere-se, justamente, à mudança de postura do Banco Central em não mais tentar garantir a estabilidade de preços via ajuste na taxa de juros. Como os indicadores de inflação no Brasil ainda não apresentaram sinais de desaceleração contundente, tais decisões de corte na taxa SELIC demonstram, claramente, uma mudança de postura, com maior tolerância à inflação, em prol de maior crescimento. Essa linha de pensamento é defendida pelo Ministro da Fazenda, Guido Mantega, cuja influência política sobre o Banco Central é evidente neste governo da presidente Dilma (diferentemente do que ocorria no governo do ex-presidente Lula, quando Henrique Meirelles, então presidente do Banco Central, demonstrava total autonomia perante a pressão política do Ministro da Fazenda).
  • IPCA-15 de outubro fica em 0,42%: Prévia do índice que sinaliza a inflação oficial brasileira (IPCA) apresentou desaceleração em outubro, passando de 0,53% verificado em setembro para 0,42% neste mês. Com isso, o resultado em 2011 aponta uma inflação acumulada de 5,48%, bem acima da taxa de 4,17% verificada no mesmo período do ano passado. Considerando os últimos 12 meses, o IPCA-15 situa-se em 7,12%. Os grupos de produtos que apresentaram maior aumento, entre setembro e outubro, foram ‘Habitação’ (de 0,49% para 0,85%) e ‘Saúde e Cuidados Pessoais’ (de 0,40% para 0,47%). Já os grupos que apresentaram maior redução foram ‘Vestuário’ (de 1,00% para 0,38%), ‘Alimentação e Bebidas’ (de 0,72% para 0,52%) e ‘Despesas Pessoais” (de 0,52% para 0,22%).
  • Banco Central reduz previsão de inflação em 2011 para 6,50%: Através de seu último Boletim Focus de outubro, o Banco Central reduziu a projeção para a inflação brasileira em 2011 (com base no IPCA), de 6,52%, feita no início do mês, para 6,50%, feita no final do mês. Para 2012, a projeção é de 5,59%.
  • IGP-M desacelera para 0,53% em outubro: O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), a chamada “inflação do aluguel”, desacelerou em outubro, atingindo 0,53% no mês, frente 0,65% verificado em setembro. O IGP-M acumula alta de 4,70% em 2011, e nos últimos 12 meses, é de 6,95%. A projeção do Banco Central, em seu último Boletim Focus de outubro, aponta o IGP-M encerrando 2011 em 5,80%, baixa em relação à projeção feita no final de setembro, de 5,82%. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em outubro houve desaceleração do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), de 0,74% para 0,68% e do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), de 0,59% em setembro para 0,26% neste mês, mas aceleração do Índice Nacional de Custo da Construção Civil (INCC), de 0,14% para 0,20%.
  • Banco Central reduz estimativa para o PIB em 2011: De acordo com o último Boletim Focus de outubro, o Banco Central reduziu mais uma vez a previsão do PIB para 2011, de 3,51%, verificada no início de outubro, para 3,29% no final deste mês. Para 2012, a projeção também é de queda, de 3,70%, feita no início do mês, para 3,50% neste último Boletim Focus. Já o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu em 0,3 ponto percentual a projeção de crescimento do Brasil para 3,8% neste ano. De acordo com as previsões, o Brasil terá o segundo menor crescimento da América do Sul, ficando atrás somente da Venezuela e abaixo da média da região. A taxa média de crescimento no mundo está estimada em 4% pelo FMI. Em 2012, o Fundo afirma que o Brasil deve crescer 3,6%, enquanto a economia mundial vai avançar a uma taxa também de 4%. O Ministério da Fazenda também deve reduzir sua projeção para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano para algo entre 3,5% e 4%, no próximo Decreto Orçamentário que sai em novembro. A estimativa oficial até então considerava crescimento de 4,5% para 2011, bem acima do esperado pelo mercado e pelo próprio Banco Central. Para 2012, o governo ainda trabalha com previsão de expansão de 5%, mas até mesmo esta projeção está sujeita a reavaliações durante a tramitação do Orçamento do ano que vem no Congresso.
  • Inadimplência do consumidor cai 3,0% em setembro: Conforme pesquisa da SERASA, a inadimplência do consumidor caiu 3,0% em setembro, na comparação com agosto. Foi a primeira queda mensal do índice, após seis altas consecutivas. No acumulado do ano, a inadimplência repetiu o mesmo índice observado em agosto, de 23,4%, e em comparação com setembro de 2010, registrou alta de 23,3%. De acordo com os economistas da SERESA, a antecipação do 13º salário dos aposentados, a redução dos juros da economia e a menor quantidade de dias úteis de setembro, frente a agosto, fizeram com que a inadimplência apresentasse recuo neste mês. As dívidas não bancárias (cartões de crédito, financeiras, lojas em geral e prestadoras de serviços como telefonia e fornecimento de energia elétrica e água) apresentaram queda de 3,3%; os cheques sem fundos caíram 10,3%; as dívidas com bancos declinaram 0,9%; e os títulos protestados apresentaram queda de 13,9%. Já os dados do Banco Central apresentaram estabilidade no nível de inadimplência em setembro, na comparação com agosto, registrando 6,8% do total das operações. Dessa forma, a taxa se mantém como a mais alta desde março de 2010. Na comparação com setembro de 2010, houve alta de 0,8 ponto percentual. As dívidas vencidas de 15 a 90 dias representaram 6,4% das operações, tendo subido 0,2 p.p. em relação a agosto, e 1,1 p.p. maior quando comparado com setembro de 2010. Já a inadimplência com cheque especial e aquisição de bens registraram queda de 0,2 p.p. cada uma, ficando em 9,4% e 13,7%, respectivamente. E a inadimplência da modalidade crédito pessoal encerrou o mês em 5,0%, mesmo patamar de agosto.
  • País gerou 209.078 novas vagas de emprego em setembro: Segundo os últimos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), foram criados no Brasil, em setembro, 209.078 novas vagas de emprego com carteira assinada. Apesar do saldo ter sido superior ao verificado no mês de agosto (190.446 novas vagas), ficou abaixo dos 246.875 postos de trabalho gerados em setembro de 2010 (queda de 15%), confirmando a desaceleração na dinâmica do emprego no Brasil, e as projeções feitas por este boletim de que a meta deste ano ficará abaixo dos 2,5 milhões de novos empregos gerados. Para o Ministro do MTE, Carlos Lupi, entretanto, a meta do governo continua sendo de 2,7 milhões de novos empregos para 2011 (a meta anterior era de 3 milhões). E para chegar nesta meta, o país deverá apresentar uma média de abertura de novos postos de trabalho de 207 mil, de outubro a dezembro. Especificamente com relação aos dados do mês de setembro, os principais setores responsáveis pela expansão do emprego no Brasil foram os Serviços (91.774 postos), a Indústria de Transformação (66.269 postos), o Comércio (42.373 postos) e a Construção Civil (24.977 postos). O resultado de setembro de 2011 foi o pior para o mês em cinco anos. Para o Ministro Lupi, mesmo assim os dados ainda são positivos, pois estão sendo gerados novos empregos em meio à crise econômica internacional e à crescente competitividade da indústria da transformação com produtos importados. E elogiou a estratégia do COPOM de manter a trajetória de queda da taxa SELIC para as próximas reuniões, como fator para estimular a criação de empregos, ao invés do investimento especulativo. No acumulado do ano até setembro, já foram criadas 2.079.188 novas vagas de emprego no país.


terça-feira, 6 de setembro de 2011

Termômetro Econômico - Agosto de 2011

Produzido por Frederico Mafra
Consultor Sênior da Global ON Consultores Associados e Professor do IBMEC

O mês de Agosto destaca a surpreendente decisão do Banco Central em reduzir a taxa de juros SELIC, contrariando a grande maioria dos especialistas do mercado, mas confirmando a submissão política da autoridade monetária perante o governo. Destaque também para os dados do PIB referentes ao 2º trimestre de 2011, e a indicação de desaceleração econômica brasileira para os próximos meses. Outros indicadores de agosto: inflação (com alta em agosto e expectativa de pressão para o final do ano), inadimplência (com índices maiores dos que os de 2010), e mercado de trabalho (com projeções cada vez mais certas de que o governo não alcançará a meta de 3 milhões estipulada para 2011).

  • COPOM surpreende o mercado e reduz em 0,50 ponto percentual a taxa SELIC: Na última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), realizada entre 30 e 31 de agosto último, foi tomada a decisão de se reduzir a taxa SELIC em 0,50 ponto percentual, chegando a 12,00% ao ano, e indo contra a maioria dos economistas e analistas do mercado, que esperavam, no mínimo, manutenção da taxa em 12,50%. Segundo o Comitê (cuja decisão não foi unânime), os aspectos que mais influenciaram para a redução da SELIC neste momento foram os indícios de deterioração da situação econômica mundial e o desaquecimento da economia brasileira verificado nos últimos meses e esperado para o restante do ano. A expectativa do mercado era de que somente a partir da próxima reunião, a ser realizada entre 18 e 19 de outubro, a taxa SELIC pudesse ser reduzida, gradativamente, contando que a inflação não se acelerasse no último quadrimestre de 2011. Entretanto, as projeções sinalizam que a inflação não se irá se desacelerar neste final de ano, e dessa forma, o esperado nesta última reunião era que o Banco Central mantivesse sua política de controle da inflação via manutenção da taxa de juros.
  • Decisão do COPOM sinaliza mudança na política econômica: Quando o Banco Central decidiu por abaixar em 0,50 ponto percentual a taxa SELIC, ele sinalizou, de fato, uma troca no mecanismo de comando da política econômica brasileira, ou seja, não utilizando a taxa de juros (política monetária) para controle da inflação, mas passando a utilizar o controle de gastos do governo e o aumento de superávit primário (política fiscal) como principais instrumentos de política econômica. O próprio presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, admitiu não estar tão preocupado com a inflação no curto prazo, mas sim com a crise financeira global e seus impactos para a economia brasileira. Ou seja, mudou-se o discurso. Mas admitir uma inflação maior no curto prazo é como abrir a possibilidade da inflação voltar e resolver não ir embora no futuro, ao bel prazer da equipe econômica. Devemos lembrar que a memória inflacionária e a cultura da indexação de preços é ainda presente na sociedade e economia brasileiras; elas só estão adormecidas, mas não extintas. A redução da taxa SELIC significou, na prática, uma decisão política se sobrepondo à decisão técnica e isenta do COPOM / Banco Central, esperada e que vinha ocorrendo até então. Em outras palavras, um Banco Central mais subordinado e menos técnico, e uma crença equivocada de que a inflação estará sob controle daqui para frente.
  • IPCA de agosto fica em 0,37%: Índice que mede a inflação oficial brasileira voltou a subir em agosto (0,37%), ante 0,16% verificado em julho. Com isso, o resultado em 2011 aponta uma inflação acumulada de 4,42%, acima da taxa de 3,14% verificada no mesmo período do ano passado. Considerando os últimos 12 meses, o IPCA situa-se em 7,23%, o mais alto patamar desde junho de 2005, e mantendo-se firme, pelo 5º mês consecutivo, acima do teto máximo estipulado pelo governo para a inflação anual brasileira (que é de 6,50%). O resultado do mês de agosto pressiona, ainda mais, o Banco Central quanto à decisão tomada de redução da SELIC feita no final do mês.
  • Grupo ‘Alimentação e Bebidas’ foi responsável por 45% do IPCA de agosto: Este grupo, que havia apresentado deflação -0,34% em julho, voltou a subiu de forma significativa em agosto, atingindo 0,72% de variação positiva, e causando impacto de 0,17 ponto percentual no índice total do mês (ou 45% deste). Vários produtos deste grupo aumentaram de preço, com destaque para as carnes. Outros grupos que também influenciaram na alta do IPCA de agosto foram ‘Habitação’ (principalmente o aluguel residencial e a taxa de água e esgoto), ‘Artigos de residência’ (com destaque para os eletrodomésticos - refrigerador e máquina de lavar) e ‘Artigos de vestuário’ (principalmente roupas femininas e masculinas, com a entrada da coleção primavera-verão). Já as despesas com o grupo ‘Transportes’ apresentaram queda de -0,11%.
  • Banco Central mantém previsão de inflação para 2011 em 6,38%: Pela 3ª semana consecutiva, o Banco Central, através do seu Boletim Focus, elevou a projeção para a inflação brasileira em 2011 para 6,38%. Vale ressaltar que esta mesma projeção era de 6,28% quatro semanas atrás. Com isso, confirma-se a expectativa do mercado de que a inflação não apresenta tendência de queda, pelo menos no curto prazo, indo contra a análise utilizada pelo governo para reduzir a taxa SELIC.
  • IGP-M volta a subir em agosto: O Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), a chamada “inflação do aluguel”, após dois meses em queda, voltou a subir em agosto, fechando o mês em 0,44%, mas dentro das estimativas do mercado, que esperava um índice entre 0,32% e 0,47%. Com isso, o IGP-M acumula alta de 3,48% em 2011, e nos últimos 12 meses, de 8,00%. A projeção do Banco Central, em seu último Boletim Focus, aponta o IGP-M encerrando 2011 em 5,61%, alta de 0,08% em relação à projeção feita no final de julho (de 5,53%). Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), em agosto houve aceleração do Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) –0,57% -, do Índice de Preços ao Consumidor (IPC) – 0,21% -, e do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) – 0,16%.
  • PIB do 2º trimestre cresceu 0,8% e chegou a R$ 1,02 trilhão: O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 0,8% no 2º trimestre de 2011, em relação ao 1º trimestre, segundo dados publicados pelo IBGE. A soma das riquezas do país alcançou R$ 1,02 trilhão. O índice ficou dentro das expectativas do mercado, e o destaque ficou para o setor de Serviços, que cresceu 0,8% no volume do valor adicionado. As maiores elevações neste setor foram em Serviços de Informação (1,9%), Intermediação Financeira e Seguros (1,6%) e Comércio (1,1%). A Indústria também apresentou avanço de 0,2% no trimestre, com destaque para a expansão verificada na Indústria Extrativa (2,2%). Eletricidade e Gás, Água, Esgoto e Limpeza Urbana, juntamente com Construção Civil, também registraram crescimento de 1,5% e 0,5%, respectivamente. Já a Agropecuária recuou 0,1% no período. Com relação a outros dados relacionados, verificou-se que a taxa de investimento no 2º trimestre foi de 17,8% do PIB, e a taxa de poupança foi de 18,1%.
  • PIB do 1º semestre (acumulado em 2011) já é de 3,6%: No 1º semestre de 2011, o PIB já acumula alta de 3,6%, com destaque para o setor de Serviços (3,7%), seguido pela Indústria (2,6%) e pela Agropecuária (1,4%).
  • Banco Central reduz estimativa para o PIB em 2011: Apesar dos resultados positivos do PIB no 2º trimestre do ano, de acordo com o último Boletim Focus de agosto, o Banco Central reduziu a previsão do mesmo para 3,67% em 2011, ante previsão anterior de 3,94% feita no final de julho. Para 2012, a projeção também é de queda, de 4,00% feita no final de julho para 3,84% feita neste último Boletim Focus. Apesar do governo, em Projeto encaminhado ao Congresso Nacional referente ao Orçamento da União para 2012, considerar o crescimento da economia em 5%, o próprio Banco Central já não considera o alcance nem de 4%. Este, inclusive, foi um dos principais motivos de preocupação, apontados pelo COPOM, para reduzir a taxa SELIC, em prol de estimular a economia a não se desacelerar neste ano e em 2012.
  • Real fecha agosto em R$ 1,5864: O Dólar fechou agosto em R$ 1,5864, ante R$ 1,5540 verificado em julho. Já o Euro fechou o mês a R$ 2,2851, ante R$ 2,2394 em julho. Especificamente com relação ao Dólar, a previsão para a taxa de câmbio, feita pelo Banco Central para 2011, continua em R$ 1,60, conforme o último Boletim Focus de agosto.
  • Inadimplência do consumidor tem alta de 2,9% em julho: Conforme pesquisa da SERASA, a inadimplência do consumidor apresentou alta de 2,9% em julho. No acumulado do ano, a inadimplência cresceu 27,7% em relação ao mesmo período de 2010. Segundo a entidade, os consumidores têm adotado medidas mais cautelosas diante da política econômica, até então, restritiva por parte do governo (de aumento de taxas de juros iniciada no início de 2011). Mesmo com recente o anúncio de corte dos juros, estes ainda se encontram em patamar muito elevado, encarecendo o crédito e as taxas cobradas pelo sistema financeiro. Outros dados demonstram o avanço, mesmo que em ritmo menor, da inadimplência: o crédito tem mantido tendência de expansão, conforme dados do Banco Central; a elevação do índice no mês refletiu o avanço da inadimplência das pessoas físicas, de 6,4% para 6,6%, sendo que entre as empresas ficou estável em 3,8%; os atrasos nos pagamentos acima de 90 dias estão em alta desde o início do ano, confirmando as análises feitas em edições anteriores do Termômetro Econômico de que as pessoas estão tendo que pagar as dívidas contraídas em 2010, além de manterem as despesas correntes em dia (desafio que acaba não sendo cumprido por todo mundo).
  • País gerou 140.563 novas vagas de emprego em julho: Segundo os últimos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), foram criados no Brasil, em julho, 140.563 novas vagas de emprego com carteira assinada. Os principais setores responsáveis pela expansão do emprego neste mês foram os Serviços (45.961 postos) e o Comércio (28.538 postos). Destaque também para a Construção Civil (25.632 postos) e a Indústria de Transformação (23.610 postos). Entretanto, o resultado de julho ficou abaixo do esperado pelo governo, que tinha expectativa de superar, pelo menos, o número de empregos criados no mesmo mês do ano passado (181.796 postos). Apesar do resultado positivo observado no mês, percebe-se que o ritmo de crescimento do emprego no país tem se apresentado mais lento em relação a 2010, quando o Brasil atingiu, ao seu final, 2,5 milhões de novos empregos. A continuidade desse comportamento em 2011 indica uma baixa probabilidade do governo atingir a meta proposta de 3 milhões de novos empregos neste ano. Dois aspectos referentes ao comportamento do mercado de trabalho deverão ser observados, principalmente, nos próximos dois meses (agosto e setembro). O primeiro refere-se à expectativa de desempenho expressivo na criação de empregos neste período, já que estes meses se caracterizam, historicamente, como os maiores geradores de empregos no país no 2º semestre. Caso o desempenho futuro não apresente, no mínimo, resultado igual ao verificado em 2010, já poderá ser dado como certo o não atingimento da meta do governo de criar 3 milhões de novos empregos até o final do ano. O segundo aspecto refere-se ao comportamento que os setores de Comércio e Construção Civil terão daqui pra frente. Historicamente, o Comércio é o setor que mais aquece o mercado de trabalho a partir do último quadrimestre do ano. E a Construção Civil carrega a expectativa de se manter aquecida pelos próximos meses. Qualquer desempenho diferente destes, relacionado a estes dois setores, poderá também contribuir para o não atingimento da meta global esperada pelo governo. Agosto e setembro serão, portanto, decisivos no resultado final de 2011. No acumulado do ano, já foram gerados 1.593.527 novos empregos (considerando a série ajustada, que incorpora as informações declaradas fora do prazo).



sábado, 3 de setembro de 2011

Banco Central reduz a taxa SELIC: o que isso realmente significa?

Produzido por Frederico Mafra, Professor do IBMEC e Consultor Sênior da Global On Consultores Associados
Postado em www.fredericomafra.blogspot.com e www.globalonconsultoria.blogspot.com

Em reunião realizada no último dia 31 de agosto, o Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central decidiu cortar em 0,5 ponto percentual a taxa SELIC, passando-a de 12,50% para 12,00% ao ano. Segundo o Comitê (cuja decisão não foi unânime), os aspectos que mais influenciaram para a redução da SELIC neste momento (já que vários analistas do mercado não esperavam uma queda tão forte já nesta reunião) foram os indícios de deterioração da situação econômica mundial e o desaquecimento da economia brasileira verificado nos últimos meses e esperado para o restante do ano.

Analisando o fato de maneira isolada, poder-se-ia concluir que a decisão de se reduzir a taxa básica de juros da economia (SELIC) foi acertada. O Brasil apresenta, atualmente, uma das maiores taxas de juros do mundo, e quanto mais alta esta taxa, maiores os custos para financiamento e crédito, e maiores os aumentos conseqüentes na dívida brasileira.

Entretanto, se analisarmos esta decisão de uma maneira mais sistêmica e abrangente, chegaremos à conclusão de que outros fatores, não tão técnicos, também exerceram influência na queda da SELIC. Vamos detalhá-los a seguir, e ao final, você leitor poderá tirar suas próprias conclusões a respeito.

Em primeiro lugar, é importante lembrar que o foco principal da busca da estabilidade econômica no país, e que sempre foi o pilar do Plano Real, é o controle da inflação. A partir dele, as demais políticas econômicas eram definidas. Se considerarmos o 2º mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os oito anos do ex-presidente Lula, a meta principal do governo, sob o ponto de vista econômico, sempre foi a estabilidade decorrente do controle da inflação. Para isso, o país adota há anos um sistema de metas de inflação, cujo principal instrumento de combate a possíveis momentos de aceleração inflacionária é a taxa de juros (em outras palavras, instrumento de política monetária). E, de maneira bem simples, funciona assim: se a inflação demonstra sinais de aceleração, aumenta-se a taxa de juros para tentar frear o consumo interno do país e, conseqüentemente, o ritmo de crescimento da economia, fazendo com que os preços se mantenham constantes e, com isso, que a inflação se estabilize. Se a inflação desacelera, o governo pode baixar as taxas de juros para estimular a economia, focando em maior crescimento sem que este gere impacto na inflação.

Isto posto, precisamos então entender melhor o que o Banco Central, em sua decisão, quis dizer sobre a desaceleração econômica brasileira e a tendência futura da inflação no país.

É fato que a economia brasileira deverá crescer menos este ano. Alguns dados já projetam crescimento de menos de 4% para 2011. Mas com relação à inflação, as projeções não são de queda, mas sim de maior pressão (ou, em outras palavras, maiores chances de aumento) para o final do ano. Segundo diversos especialistas, a economia brasileira ainda enfrenta riscos inflacionários neste 2º semestre de 2011, e a desaceleração do ritmo de atividade observada nos últimos meses não é forte suficiente para justificar um corte da taxa SELIC, como o ocorrido agora. Para ilustrar, os economistas apontam alguns fatores que ajudam a, no mínimo, manter a atual pressão sobre inflação para o final do ano. Dentre eles, estão:
  • O crescimento da concessão de crédito a pessoas físicas, que aumentou 2,2% nos últimos 12 meses;
  • As vendas do varejo, que aumentaram 7,1% até junho deste ano, quando comparadas com o mesmo período do ano passado;
  • A dinâmica do mercado de trabalho interno, que continua empregando mais do que demitindo, com redução gradativa da taxa de desemprego (em julho, a taxa de desemprego chegou a 6%, segundo o IBGE, o menor nível para o mês em nove anos); 
  • O crescimento de 2,2% na renda real dos trabalhadores em julho, quando comparada com junho deste mesmo ano;
  • Os reajustes salariais concedidos e a serem concedidos em 2011, sendo praticamente 90% deles acima da inflação oficial;
  • A alta do preço do etanol, das carnes bovinas e do cigarro (só este último deverá pressionar em 0,2 ponto percentual a inflação a partir de novembro, dado o aumento do IPI já determinado pelo governo);
  • A dinâmica da inflação de serviços, que já cresceu 9% só neste ano, mostrando maior resistência à queda em função do emprego e da renda.

Tudo isso, junto, continuará contribuindo para uma demanda interna forte e um aumento da resistência inflacionária. Em outras palavras, haverá dificuldade para que a inflação caia, pelo menos no curto prazo. No próximo dia 6 de setembro sairão os dados do IPCA de agosto, e já é esperado pelo mercado que o índice apresente elevação em relação a julho, ultrapassando 7% no acumulado dos últimos 12 meses, reforçando as críticas sobre a decisão do COPOM de abaixar a taxa de juros, acreditando que a inflação no Brasil irá desacelerar.

Portanto, quando o Banco Central decide por abaixar 0,5 ponto percentual a taxa SELIC, ele sinaliza, de fato, uma troca no mecanismo de comando da política econômica brasileira, ou seja, não utilizando a taxa de juros (política monetária) para controle da inflação, mas passando a utilizar o controle de gastos do governo e o aumento de superávit primário (política fiscal) como principal instrumento de política econômica.

Traduzindo para o leitor não economista: na prática, o governo acredita que o momento é de controlar os gastos públicos e gerar superávit, reduzindo a taxa de juros e, conseqüentemente, sua dívida pública. O foco principal é não deixar a economia brasileira desacelerar, ou crescer menos que o esperado. Para essa conta fechar, o governo também acredita que a redução dos juros é possível dada a expectativa de queda da inflação para os próximos meses. Entretanto, como já demonstrado, a inflação não apresenta sinais de que vai cair, e aí essa conta do governo na, realidade, não fecha.

Para destoar ainda mais nesta conta que o governo tenta fechar, o projeto encaminhado ao Congresso Nacional relativo ao Orçamento da União para 2012 expande o gasto público muito acima do crescimento do PIB – superestimado em 5%, já que as projeções do próprio Banco Central, em seu último boletim semanal Focus, apontam crescimento do PIB em 2011 de 3,79% e em 2012 de 3,90%. Segundo fontes do próprio governo, entretanto, isso não seria problema, já que historicamente as contas públicas são administradas por decreto, e não pelas previsões orçamentárias. Se isso é verdade, para que serve, então, o Orçamento da União?

Continuando, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, já vinha preparando o mercado para esta possível queda das taxas de juros, dizendo que a crise internacional se desenhava mais preocupante do que se imaginava antes, e que seus efeitos recessivos para a economia brasileira deveriam ser combatidos, sinalizando, portanto, a possibilidade de antecipação do processo de redução de juros no país para estimular a economia.

Neste ponto, precisamos lembrar que o próprio presidente do Banco Central, em seu primeiro discurso como tal, no início do ano, defendeu sua autonomia e imparcialidade na condução da política monetária brasileira, dizendo que a autoridade monetária continuaria tendo como principal meta o controle da inflação no Brasil e a garantia da estabilidade econômica. Ou seja, está claro que a decisão de abaixar os juros, já neste momento, não pode ser atribuída apenas à análise de dados técnicos, mas também a uma pressão política para que ela acontecesse.

Essa hipótese se confirma pelas declarações do Ministro da Fazenda, Guido Mantega, o qual afirmou que, ao contrário de 2008 (auge da crise econômica mundial), quando houve uma reação fiscal mais forte por parte do governo brasileiro, com expansão dos gastos e do crédito públicos, e pouca redução da taxa de juros, dessa vez a composição da política econômica será exatamente o contrário, com a meta fiscal encabeçando as ações do governo, sendo possível, então, reduzir a taxa de juros.

Constata-se, infelizmente, a forte influência política do Ministro Mantega sobre a autoridade e as decisões do Banco Central e de seu presidente Alexandre Tombini, fazendo o país voltar a definir suas políticas econômicas não tanto por critérios estritamente econômicos, mas muito mais políticos (como já ocorrera historicamente no passado). Esse temor já havia sido alertado em outros posts publicados por este autor, ainda em 2010, quando a então vencedora do pleito eleitoral, a atual presidente Dilma, havia nomeado os integrantes de sua equipe econômica. Naquela época, a pergunta que se colocava era se o governo Dilma seguiria à risca a política monetária de aumentar juros para controlar a inflação, ou se adotaria outra postura, aceitando um nível de inflação maior em prol de uma expansão da economia brasileira. E a expectativa do mercado era de que o governo, de fato, adotaria uma postura mais tolerante com a inflação, em grande parte devido à influência do Ministro Mantega sobre o novo presidente do Banco Central. Mas o que estranha é que o então novo presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, nomeado pela presidente Dilma, deixou claro em seu primeiro discurso que faria todo o esforço possível para a manutenção da estabilidade econômica, não havendo dúvidas em aumentar a taxa de juros para segurar a inflação, caso fosse necessário.

Agora, o próprio Tombini admite não estar tão preocupado com a inflação no curto prazo, mas sim com a crise financeira global e seus impactos para a economia brasileira. Ou seja, mudou-se o discurso. Mas admitir uma inflação maior no curto prazo é como abrir a possibilidade da inflação voltar e resolver não ir embora no futuro, ao bel prazer da equipe econômica. Devemos lembrar que a memória inflacionária e a cultura da indexação de preços é ainda presente na sociedade e economia brasileiras; elas só estão adormecidas, mas não extintas. “Não cutucar a onça com vara curta” deveria ser o ditado a ser lembrado neste momento.

Não basta o presidente do Banco Central dizer, em seu discurso, que acredita na volta da inflação a patamares menos elevados neste final de ano, e de que em 2012 ela estará no centro da meta de 4,5%. Tecnicamente, todos os fatos já apontados neste artigo demonstram o contrário: de que a inflação não tenderá a cair nos próximos meses, e de que em 2012 tenderá a ser maior do que a meta do governo. O mercado projeta índice de, no mínimo, 5% para o próximo ano, e o próprio Banco Central, em seu boletim Focus, projeta inflação de 5,2% em 2012.

Com relação a 2012, especificamente, temos alguns outros fatores que irão fortalecer a inflação e manter o IPCA acima do centro da meta do governo. São eles:
  • O aumento de quase 14% no salário mínimo previsto para o ano que vem – passando dos atuais R$ 545,00 para R$ 619,21 -, o que deve injetar no consumo das famílias cerca de R$ 9 bilhões adicionais, e dar mais combustível para a inflação, via aumento do consumo interno;
  • Este aumento do salário mínimo representará, para os cofres públicos, acréscimo de R$ 13,3 bilhões.

Para um governo que aponta como política econômica prioritária o corte de gastos e ajuste fiscal, estes dados, no mínimo, irão criar uma dificuldade maior para o governo atingir as metas de inflação previstas. Num pior cenário, o governo poderia ter que lançar mão, novamente, de um aumento da taxa de juros para conter a inflação, o que, na prática, seria admitir um erro estratégico grave na condução da política econômica.

Voltando ao Orçamento da União para 2012, o Projeto de Lei encaminhado ao Congresso projeta, além do crescimento do PIB em 5% (valor superestimado), taxa SELIC de 12,50% até o final do ano que vem, inflação de 4,8% e câmbio a R$1,64. Ou seja, o governo parece projetar seu Orçamento com base em dados fictícios, já que trabalha para a queda gradual da SELIC e projeta inflação, via Banco Central, de mais de 5% ao ano.

Finalizando, o cenário básico futuro, para grande parte dos economistas, é de baixo crescimento econômico com inflação. E se a finalidade do governo é estimular o crescimento via redução de gastos e aumento dos investimentos, por outro lado estará abrindo mão do instrumento de controle da inflação, que é a taxa de juros.

A redução da taxa SELIC significou, na prática, uma decisão política se sobrepondo à decisão técnica e isenta do COPOM / Banco Central que vinha ocorrendo até então. Em outras palavras, um Banco Central mais subordinado e menos técnico, e uma crença equivocada de que a inflação estará sob controle daqui para frente.

Vamos torcer para que o governo esteja certo, e este autor que vos escreve esteja, apenas, um pouco mais pessimista que o governo, para o bem da sociedade brasileira e da economia em geral.